O que a comunicação pode nos ensinar sobre relações mais respeitosas?

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No começo do dia, uma instalação montada no meio de um espaço representava a “árvore da vida”. Ao longo das horas, jovens de Porto Alegre foram escrevendo em folhas os seus propósitos e compromissos, pendurando-as nos galhos até então vazios. Ao final, a árvore cumpria a sua função: mostrar que a esperança de uma vida mais respeitosa pode e deve vir pelas mãos das novas gerações. 

Essa cena aconteceu no Fórum Vozes pela Vida, realizado em 5 de agosto, com cobertura ao vivo do “É Bom, É Brasil”, que vai ao ar de segunda a sexta, às 10h, na Demà Sagres TV. Mais de 600 jovens de 30 municípios gaúchos passaram o dia ali. Entre palestras e ativações, uma pergunta também atravessou toda a programação: como mudar o jeito de dizer as coisas pode nos levar à cultura do cuidado? 

Uma palestra sobre linguagem

Um dia dedicado ao respeito às mulheres poderia muito bem ter terminado com uma chamada ou uma síntese, mas foi encerrado falando justamente sobre comunicação. 

A fala foi do educador parental e psicanalista Thiago Queiroz, sobre Comunicação Não Violenta e Masculinidade Positiva. 

A Comunicação Não Violenta é um método criado pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg. Ele passou anos observando conflitos e chegou a uma conclusão: boa parte das brigas não começa pela diferença em si, mas pelo jeito como ela é dita. 

A proposta dele tem quatro passos:

1-  descrever o que aconteceu sem julgar

2-  dizer como você se sente, 

3- entender o que você precisa 

4- pedir de forma clara.

O que Rosenberg está dizendo é que a linguagem constrói realidade. Quem aprende a dar nome ao que sente e a escutar o que o outro precisa, se relaciona de uma forma melhor.

O que não é ensinado aos meninos

Meninos aprendem desde cedo a competir, a aguentar, a não demonstrar fragilidade. Raras vezes eles são ensinados sobre cuidado, e não é por eles não serem capazes, mas porque a função de cuidar sempre foi atribuída às mulheres. 

A escritora americana bell hooks avalia que a primeira violência que se pede a um homem não é contra as mulheres, mas contra ele mesmo. Meninos são treinados para reprimirem os seus sentimentos desde cedo. E é somente depois dessa primeira desconexão que outras violências se tornam possíveis. 

Essa visão muda a forma que podemos encarar esse problema. Ensinar o cuidado nada mais é do que devolver algo que foi retirado durante a criação desses meninos. 

E há muitos motivos para acreditarmos que dá certo. A socióloga australiana Raewyn Connell mostrou que existem várias formas de ser homem e elas mudam conforme o lugar, a época e a cultura. Se a falta de cuidado fosse algo natural aos homens, não teria solução, mas, como é aprendizado, dá para ensinar diferente. 

O que já se sabe que funciona

Em 2002, a organização brasileira Promundo, junto com o Instituto Papai, o ECOS e a Salud y Género, criou o Programa H, voltado para jovens de 15 a 24 anos. O ponto de partida foi uma pergunta: por que alguns rapazes constroem relações mais igualitárias e outros não?

A pesquisa encontrou três respostas.

1-  Amigos que apoiam a igualdade. 

2- Experiências próprias de relações que deram certo assim. 

3- E exemplos de homens que mostram outro caminho possível.

O programa já foi adaptado em mais de 20 países e é reconhecido por instituições como Banco Mundial, OMS e UNICEF.

Por isso a escolha do subtítulo do Fórum Vozes pela Vida foi “de jovem para jovem”. Não é só uma escolha bonita, mas o primeiro item da lista, da importância de amizades construtivas. 

E ao fechar com Thiago Queiroz, o fórum entregou também o terceiro item. Queiroz criou o Paizinho, Vírgula!, projeto sobre paternidade e criação sem violência. Um homem falando para meninos sobre outro jeito, mais positivo, de ser homem.

Comunicar não é despejar informação

A cobertura da equipe do “É Bom, É Brasil”  não buscou só apresentar o evento, mas também registrar os frutos de quando o jovem começa a entender a si mesmo.

E existe uma escolha por trás desse tipo de cobertura.

Paulo Freire escreveu, ainda nos anos 1960, sobre a diferença entre estender e comunicar. Estender é levar algo pronto até alguém. Comunicar é construir junto. Para ele, não existe comunicação sem diálogo, e não existe diálogo se o outro for tratado como alguém que só recebe, incapaz de se manifestar. 

Décadas depois, o colombiano Jesús Martín-Barbero acrescentou: o mais importante não é o que a TV, o rádio ou o jornal fazem com as pessoas, mas o que as pessoas fazem com aquelas informações que elas recebem.

E em uma emissora como a Demà Sagres TV, que tem a educação como foco, essa é a missão: levar a conversa dos jovens que estavam lá para quem não estava.

Um menino que aprende a dar nome ao que sente, a escutar sem interromper, a perceber o que o outro precisa e se comunicar de maneira não violenta, não está só ficando mais gentil. Ele está trabalhando e desenvolvendo exatamente aquilo que proporciona relações respeitosas. É dessa forma também que se constrói uma sociedade em que mulheres possam viver com mais segurança.

No final daquele dia em Porto Alegre, a árvore da vida estava cheia de folhas escritas à mão, cada uma com um compromisso e um desejo de um mundo melhor. 

Cuidar e comunicar são dois verbos que, no fim, pedem a mesma coisa: entender e reconhecer que tem alguém do outro lado. 

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